Eu nunca coube nessa cidade. Eu nunca coube nessas pessoas. Eu nunca coube em lugar nenhum. Meus pés não pousam nas pegadas de nenhum de vocês. Só nas minhas.
Os erros vem e vão, como uma locomotiva que saiu do trilho, mas que fatalmente voltará ao seu lugar. Erros rasgam a monocromia da vida sem pudor e desmancham caminhos e desbravam fronteiras e soterram planos e brotam escadas e janelas. Erros, meus caros, são os dentes do homem em sua própria carne, a cicatriz pulsante que se tranforma em troféu. Em salto. Em beijo.
Sou dona dessas sinapses que se tranformam em correntes que se tranformam em movimentos mecânicos do corpo que se tranformam em palavras. Eu sou feita de palavras. Das feias. Das sujas. Das belas. Não me importo em emporcalhá-las e revirá-las do avesso e decapitá-las. Não hesito em passar-lhes perfume e arrumar-lhes um laço de fita no cabelo. Minha vida, meus caros, é meu roteiro. De mais ninguém.
Essa gente teima em querer me agarrar pelos calcanhares e censurar meus vestidos e mudar meus discos de lugar. Não sabem que eu não quero ser um volante. Eu quero guiar. Eu aperto meus próprios botões. Eu uso fones de ouvido para não contaminar minhas canções com o asco do mundo. Eu ando em minha própria linha e a mudo na direção que eu quiser. Se eu quiser alçá-la ao céu, se eu quiser riscá-la até o litoral e ainda que eu queira findá-la na sarjeta, eu sou dona desse andar.
Não tentem, pois, segurar-me pelos pulsos e sacudir-me. Vocês são feitos de opiniões. Essas opiniões hipócritas, que violam, que arranham, que arrancam os cabelos do que não lhes pertencem. Lembrem-se, vocês são apenas pessoas, e pessoas, meus caros, já não lapidam meus tesouros a muito tempo.
Já tenho muitos moinhos de vento para vencer, e não falsos heróis irradiando moralismos derrotados. Vocês não são o bastante. Não para mim.
Quem quiser que tape os ouvidos, feche os olhos, bata em retirada. Meu bloco vai passar por esta avenida e quem não tomar agrado pelas minhas claves de sol, procure claves de fá em outra freguesia.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
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