
Hoje eu fui assistir a um curta-metragem e meus pressentimentos me sussurravam que eu ia me impressionar. Eu já pude ver outros trabalhos desse diretor, que, por sinal, é maranhense, o Frederico Machado. E digo uma coisa, é impactante. Ele conseguiu me arrancar lágrimas com o primeiro trabalho dele que eu assisti, o Litania da Velha, baseado em um livro de sua mãe. Outro filme que eu vi desse diretor é o Infernos, que desfia sobre a personalidade desregulada e fascinante do poeta Nauro Machado, cravando nos olhos o inferno que é a mente do poeta e a cidade.
Então fui para lá certa de que esta seria uma experiência no mínimo emocionante. O filme em questão é um curta intitulado Vela ao Crucificado, baseado na obra homônima de Ubiratan Teixeira. É verdade que o roteiro não segue fielmente a obra literária. Eu entendi como uma continuação após o Luciano sair da cena desolado porque o patrão não se sensibilizou com a sua situação de ter perdido um filho e não ter como enterrá-lo.
O curta é simples, direto e bruto. Ele empurra a realidade para dentro de nossos olhos como um soco. Seco. Desesperado. Angustiante. Dá vontade de levantar da cadeira e sacodir aquela criança que jaz morta numa mesa no centro da sala, só para ver findar aquele sofrimento. Aquele fim de tudo. Nas cenas dentro da casinha de pau-a-pique da família, o outro irmão canta uma cantiga popular de forma desalentada e tosse e soluça. A canção martela em nosso ouvido e incomoda. Rasga. Aperta um laço etéreo ao redor de nossos ouvidos, como se os ouvidos fossem um pescoço exposto.
Quase não há diálogo. Somente o pensamento desolado do pai. O soluço da mãe. O cantar arrastado e entrecortado do irmão. O menino na mesa. E uma vela. Uma vela de cada vez.
Em vários momentos do filme eu senti os pêlos da minha nuca se eriçando. A sensibilidade ali aparece no avesso da candura. A sensibilidade do filme vem do tapa da dor. Da fisgada no peito. A crueza do chão engolindo o corpo rígido da criança. E da respiração pesada do pai enquanto encobre de terra o cadaverzinho enrolado em toalhas. Aquele arfar de quem perdeu um filho e joga a terra por cima de seu próprio espírito com ajuda da enxada sofrida. Cada grama de terra sufoca e desce sobre o peito do pai como toneladas.
O final, entretanto, é o que mais choca. Ouvir aqueles murros secos de derrota ainda martelam aqui em meus ouvidos.
O curta MERECE ser assistido e apreciado e merece reconhecimento aqui na terra em que ele foi filmado, uma vez que já foi exibido em várias mostras de cinema e inclusive já foi premiado. Não sei se a sessão foi única hoje, ou se ele vai ficar em exibição lá no Cine Praia Grande. Mas tô com dvd aqui. Qualquer coisa, peçam ;]
Segue aí o link do curta na página da Lume Filmes: http://www.lumefilmes.com.br/index.php?pg=show_criticas&id=80
Didis Oliveira.






